terça-feira, 7 de julho de 2015

A sociedade e os grandes criminosos segundo Balzac.

HONORE-BALZAC-CARICATURE-BODARD-BLOG-2014-538x218
Balzac é Balzac. Sendo assim, é compreensível que tenha sido convocado, mais uma vez, pelo Diário para a série “Conversas com Escritores Mortos”. As frases abaixo foram extraídas do livro “Código dos homens honestos”.
Monsieur de Balzac, o senhor é considerado um dos maiores romancistas de todos os tempos – e também é conhecido por ter criado personagens excelentes. Cá entre nós, Vautrin é meu favorito. O que tem a dizer sobre ele?
Vautrin descende de Adão por essa linha que o diabo continuou assoprando fogo cuja primeira faísca foi lançada sobre Eva. Quando Deus quer, esses seres extraordinários e malévolos são Moisés, Átila, Carlos Magno ou Napoleão; mas, quando ele deixa no fundo do oceano toda uma geração desses instrumentos gigantescos, se tornam algo semelhante a Pugatcheff, Robespierre, Louvel ou o padre Carlos Herrera [Vautrin]. Dotados de um poder imenso sobre as almas tênues, eles as atraem e as esmagam. Em poucas palavras, Vautrin é uma estatueta do mal e da corrupção, que, no bom caminho, teria sido mais do que Cardeal Ximenes e mais do que Richelieu.
Isso quer dizer que o senhor o desaprova?
É claro que não. Os ladrões constituem uma classe especial da sociedade; contribuem para o movimento da ordem social; são o lubrificante das engrenagens e, como o ar, penetram em qualquer lugar; os ladrões são uma nação à parte, no interior da nação.
Estou confusa. Então o senhor aprova os ladrões?
Acho que é necessário, antes de tentar desvendar as astúcias dos ladrões, tecer sobre eles algumas considerações imparciais; talvez ninguém mais possa analisá-los sob todos os ângulos e com total sangue-frio. Mas certamente não serei acusado de querer defendê-los, pois isso seria bem injusto. Não posso defender aqueles que podem, a qualquer momento, me roubar.
E quais seriam suas considerações imparciais?
O ladrão é um ser raro; a natureza o concebeu como uma criança mimada e despejou sobre ele toda sorte de perfeições: um sangue frio imperturbável, uma audácia a toda prova, a arte de aproveitar o momento exato, tão fugaz e tão lento, a agilidade, a coragem, uma boa constituição física, olhos penetrantes, mãos ágeis, fisionomia aberta e expressiva, todas estas qualidades não são nada para um ladrão e, no entanto, são consideradas como a soma das capacidades de um Aníbal, de uma Catarina, de um Mário, de um César.
Nem todos os ladrões são audaciosos, corajosos e atraentes. Podemos dizer, então, que não estamos falando de todos os criminosos, e sim dos mais notáveis entre eles?
É claro que sim. Há uma grande diferença entre um ladrãozinho qualquer e um criminoso célebre. O pequeno roubo é, mais exatamente, o seminário onde se recruta para o crime, e os ladrões de galinha não passam de maus atiradores do grande exército dos profissionais sem patente.
Há alguma diferença crucial entre eles?
O ladrão banal irá roubar sua carteira e sair correndo; o grande criminoso não se contenta com isso – seus métodos são sofisticados e elegantes, seu lucro é maior.
Basta ao grande criminoso ter uma boa fisionomia, audácia, sedução e sangue-frio? Não é preciso que tenha um conhecimento da natureza humana, por exemplo?
Ele deve conhecer os homens, seu temperamento, suas paixões; tem que mentir com grande habilidade, prever os acontecimentos, avaliar o futuro, ser dono de um espírito ágil e agudo; tem que ter um raciocínio rápido, encontrar boas saídas, ser um bom comediante, bom mímico; tem que saber captar o tom e as maneiras das diversas classes sociais (imitar o funcionário, o banqueiro e o general, conhecer seus hábitos e suas características). E, acima de tudo, tem que ter imaginação, uma brilhante imaginação. Ele não é forçado a estar sempre inventando novos recursos? Para o ladrão, o fracasso equivale a uma condenação.
Monsieur de Balzac, levando em conta tudo o que o senhor disse, tais criminosos são criaturas fora do comum, a quem pouco falta para ser grandes bomens. Por que não enveredaram por outros caminhos, se são tão capazes? O que impediu que tal coisa acontecesse?
É uma questão muito difícil, minha jovem. O resultado de dons tão excepcionais é, em geral, uma propensão à indolência. Entre o objeto cobiçado e a posse, não veem mais nada, entregam-se felizes ao mal, nele se instalam, a ele se habituam.
Como podemos reconhecer os grandes criminosos?
Nunca desconfie de seu vizinho da esqueda, que usa uma camisa de tecido grosso, uma gravata branca e uma roupa limpa, mas de tecido barato; ao contrário, acompanhe com muita atenção os movimentos de seu vizinho da direita, de gravata fina e elegante, muitos berloques, suíças, ar de gente honesta e próspera, maneira desenvolta de falar; é este camarada quem vai roubar seu lenço ou seu relógio.
E o que fazer quando somos roubados por eles?
Não há nada a fazer. Se o seu brilhante desapareceu, não perca tempo em pedir contas a esse senhor. Inútul revistá-lo, nada vai encontrar; ele irá se fazer de ofendido e você se humilhará à toa. Seu brilhante está a cem passos; e, prestando um pouco de atenção, você verá sete ou oito fashionables postados no meio da multidão em pontos estratégicos.
E aqueles que entram no crime por gosto?
Estes são aqueles que Dr. Gall descrever como infelizes cujo vício decorre de sua organização mental. Há, naturalmente, grandes criminosos que amam o vício e que o abraçam efusivamente; acho que estes entram na lista daqueles que se tornam criminosos por gosto.
E os que não amam o vício? Não sentem remorso?
De fato, em algum deles há remorsos crescentes antes que a voz da consciência se apague. A multidão, ao ver um homem no banco dos réus, o vê como um criminoso, o abomina; no entanto, esquadrinhando sua alma, um padre pode ver nascer o arrependimento. Que grande tema para a reflexão! A religião católica é sublime quando, em vez de virar o rosto com horror, abre os braços e chora com o pecador.
Seria certo afirmar que os ladrões sempre existiram e sempre existirão?
Sim. Eles são o produto necessário de uma sociedade constituída. Na verdade, em todos os tempos, os homens sempre estiveram enamorados da fortuna. Todos dizem: “Hoje em dia, o dinheiro é tudo, quem tem dinheiro tem tudo”. Ah! Evitem repetir essas frases banais, passarão por tolos. Desde que o mundo é mundo, o dinheiro foi adorado e buscado com o mesmo ardor.
Para encerrarmos nossa conversa, eu gostaria de perguntar se o único ladrão é o que rouba explicitamente.
Todos procuram uma maneira de fazer uma fortuna rápida e sólida, porque todos sabem que, depois de adquirida, ninguém se lamentará; ora, essa maneira é através do roubo, e o roubo é coisa comum.
Como assim?
O comerciante que ganha cem por cento, rouba; também rouba o fornecedor que paga a 30 mil homens 10 centavos por dia, anota os ausentes, estraga o trigo misturando farelo para render mais; outro, queima um testamento; outro, adultera os impostos; outro, inventa uma caixa de pensões; há mil maneiras de roubar. O verdadeiro talento consiste em ocultar o roubo sob uma aparência de legalidade: que horror que é apoderar-se do bem alheio, só o que vem de nós nos pertence, eis a grande astúcia. Os ladrões espertos são recebidos pela sociedade, passam por pessoas de bem.
Algo a acrescentar?
Os ladrões são uma perigosa peste das sociedades, mas não se pode negar sua utilidade para a ordem social. Se compararmos uma sociedade a um quadro, veremos que são necessárias zonas de sombras e zonas de luz, não? Que seria de nós se o mundo fosse povoado exclusivamente de pessoas honradas, ricas, de bons sentimentos, tolas, piedosas, políticas, simples, dissimuladas? Ah, seria um tédio mortal, não haveria mais nada picante. A humanidade entraria em luto no dia em que já não houvesse fechaduras.

MISERAVÃO


UAUUUUUUUUUUU, Quanta energia em irmão

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A vida importa? Jean Wyllys responde



Projeto de Lei protocolado pelo deputado Jean Wyllys. (Fonte: ASCOM/Jean Wyllys)
Projeto de Lei protocolado pelo deputado Jean Wyllys. (Fonte: ASCOM/Jean Wyllys)
A ignorância não devia ser algo escandaloso. De fato, ela não é: trata-se da condição natural do homem. Através da observação, da experiência e da contemplação, o homem pode ultrapassar a barreira da ignorância e elevar-se de um nível inferior de conhecimento a um nível superior de conhecimento. Esse processo jamais se encerra, a bem da verdade. O que de fato é escandaloso é que se ostente a própria ignorância como um tesouro, que se a exiba como algo precioso e que se a defenda como o fim último do homem. O escândalo é ainda maior quando se trata de alguém que, por função da posição que ocupa na sociedade, deveria zelar pela verdade. E esse é justamente o caso de Jean Wyllys.
Vamos aos fatos: @ deputad@ Jean Wyllys (PSOL/RJ) apresentou no dia 24 de março, ontem, no plenário da Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei nº 882/2015 (baixe o arquivo digital aqui), que “[e]stabelece as políticas públicas no âmbito da saúde sexual e dos direitos reprodutivos e dá outras providências”. Dentre outras coisas, o projeto estabelece a legalização da “interrupção voluntária de gravidez” até a 12ª semana de gestação, a inserção de conteúdos relacionados a direitos reprodutivos e educação sexual no sistema de ensino pelo Ministério da Educação e restrições à objeção de consciência por parte de médicos que se recusem a tomar parte nos procedimentos. O conteúdo legal do projeto não é o foco deste texto – do contrário, ficaria muitíssimo extenso e chato, e creio que há pessoas muito mais habilitadas a escrever sobre aspectos jurídicos do que eu –, mas sim a justificativa que compõe o projeto de lei.
Para manter a integridade mental dos leitores, copiarei abaixo apenas os dois primeiros parágrafos do texto, mas convido-os a ler o inteiro teor do projeto de lei d@ eminente deputad@ PSOLista. Os negritos, bem como as respectivas numerações entre colchetes, são por minha conta.
A primeira razão para este Projeto de Lei é, na verdade, uma falta de razões: não há justificativa para que o aborto seguro seja ilegal [2] e as mulheres que o praticam, bem como aqueles e aquelas que as assistem, sejam considerados criminosos ou criminosas. Todos os argumentos que, ao longo do tempo, têm sido oferecidos a modo de justificativa para manter a atual legislação não passam de um conjunto mal articulado de mentiras, omissões e hipocrisias [1] cujo efeito se mede, anualmente, em vidas humanas. Vidas indiscutíveis, seja pela ciência, seja pela filosofia, seja pela religião, de mulheres já nascidas. E o único motivo para isso é a vontade de uma parcela do sistema político e das instituições religiosas de impor pela força suas crenças e preceitos morais ao conjunto da população, ferindo a laicidade do Estado. [3]
Vocês devem ter notado que os números dos negritos não estão em ordem. Vamos por partes. Concedendo ao nobre parlamentar o beneplácito da dúvida pelo seu infeliz comentário no argumento [1], talvez @ deputad@ conheça apenas de nome um único cientista que é freqüentemente citado por aqueles que combatem a descriminalização do aborto: Jérôme Lejeune. O Dr. Lejeune foi o responsável pela descoberta da trissomia do cromossomo 21, mais comumente chamada de Síndrome de Down. Bom, decerto os argumentos contra o aborto de um homem da estatura intelectual e científica do Dr. Lejeune não passam de “um conjunto mal articulado de mentiras, omissões e hipocrisias”. Afinal, ele era a epítome do opressor: branco, heterossexual, europeu e, o pior dos crimes, católico.
No entanto, @ deputad@ talvez jamais tenha ouvido falar no Dr. C. Ward Kischer. O Dr. Kischer é biólogo, PhD em embriologia humana, professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade do Texas e detentor de uma farta bibliografia publicada em periódicos científicos de primeira linha. A explicação que o Dr. Kischer oferece, em artigo escrito em 1993, a respeito do começo da vida humana é a seguinte (tradução minha):
A partir do momento em que o espermatozóide entra em contato com o ovócito, sob condições que entendemos e descrevemos como normais, todo desenvolvimento subseqüente até o nascimento de uma criança viva é fait accompli [fato estabelecido]. Isso quer dizer que, depois do contato inicial entre o espermatozóide e o óvulo, não há qualquer momento ou estágio subseqüente que possa ser arbitrado ou esteja pendente da mãe, ou do embrião ou feto. Também não há uma segunda contribuição, um sinal ou gatilho, requerido pelo macho para continuar e completar o desenvolvimento até o nascimento. O desenvolvimento humano é um continuum no qual os ditos estágios se sobrepõem e se fundem uns nos outros. De fato, toda a vida está contida dentro de um continuum do tempo. Portanto, o começo de uma nova vida se dá no começo da fertilização, o evento reprodutivo que é a essência da vida.
A exposição sucinta do Dr. Kischer, baseada nos estágios Carnegie de desenvolvimento embriológico humano, nos conduz ao argumento 2, que afirma que não há motivos para que o aborto seguro seja ilegal. Seguro ou não, todo procedimento de “interrupção voluntária de gravidez” implica na eliminação de uma vida humana. Portanto, ao menos do ponto de vista legal, encaixa-se perfeitamente no rol dos crimes dolosos contra a vida, uma vez que se trata de algo que se buscou voluntariamente.
A argumentação do Dr. Kischer também nos conduz ao argumento 3. Se você for uma pessoa minimamente educada, que saiba ler e consegue compreender o que está escrito (o que deve ser fato, já que, do contrário, você sequer se daria o trabalho de ler este artigo), você certamente irá reparar que o Dr. Kischer não citou, em nenhum momento, quaisquer premissas morais, filosóficas ou religiosas para defender que a vida humana se inicia na concepção. Ele não relacionou o momento da concepção com a encarnação de uma alma, por exemplo, nem com a valoração moral do aborto sob a perspectiva de uma divindade ou de um livro sagrado.
Diante da clareza do Dr. Kischer e da patente verborragia d@ nobre parlamentar do PSOL, duas são as possibilidades: ou Jean Wyllys é um@ total, complet@ e profund@ ignorante das questões sobre as quais pretende legislar ao propor esse projeto de lei; ou se trata de um caso puro e cristalino de falta de caráter. Independente do caso, o que o projeto demonstra é que @ deputad@ tem maior preocupação em defender qualquer ideologia rasa do que se debruçar sobre um assunto complexo e, nele, buscar a verdade.
Todo o resto da justificativa é um show de horrores – argumentos requentados que provém desses três primeiros que selecionei, estatísticas obscuras sem indicação de fonte específica, contradições, etc. –, e recomenda-se ao aventureiro que queira desbravar o texto do deputado que se arme de toda a cautela possível – e, talvez, de um bom remédio para o trato estomacal. Não o leia depois de ter comido: os efeitos podem ser desastrosos.
Observação: a designação de gênero ao se referir a Jean Wyllys foi convenientemente substituída pelo “@” para evitar desagradar @ nobre deputad@ e ofender sua respeitável e ilibada figura.
Felipe Mello

domingo, 5 de julho de 2015

A carta extraordinária com que Charlotte Brontë recusou uma proposta de casamento

A autora.
A autora.
O texto original, da autoria da jornalista Maria Popova, foi publicado no site Brainpickings.
ADVERTISEMENT
“O casamento é o assunto sobre o qual mais tolices perigosas são ditas e pensadas”, afirmou George Bernard Shaw em sua meditação sobre o casamento, escrita em 1902. “Procuramos comunhão, mas não a encontramos”, escreveu Denise Levertov em seu poema “The Ache of Marriage”. No meio do caminho entre a tolice perigosa e a fuga, há a proposta de casamento – e sua possível rejeição.

No último dia de fevereiro de 1839, oito anos antes da publicação de Jane Eyre, Charlotte Brontë foi pedida em casamento pelo jovem pároco Henry Nussey, irmão de sua melhor amiga. A resposta que enviou-lhe, escrita no dia cinco de março, foi brilhante; ao mesmo tempo assertiva e generosa, inequívoca e gentil, pode ser considerada um exemplo de “o problema é comigo, não com você”. Ela realmente explica os motivos pelos quais seria uma péssima companheira de acordo com o padrão da época.
“Meu caro senhor,
Antes de responder sua carta, eu poderia ter passado um longo tempo considerando seu conteúdo; mas como decidi, desde o momento em que a recebi e a li, o caminho pelo qual enveredaria, tal atraso pareceu-me completamente desnecessário.
Você sabe que tenho muitas razões para sentir gratidão por sua família, amar ao menos uma entre as suas irmãs e estimá-lo muito fortemente. Não acuse-me, portanto, de más intenções quando eu disser que a minha resposta para a sua proposta deve ser um determinado não. Minha decisão, que foi baseada nos ditames da consciência e não da inclinação, não foi fundamentada em um desprezo em particular pela ideia de unir-me a você – mas estou certa de que a minha disposição natural não foi calculada para fazer um homem como você feliz.
Tenho o hábito de analisar o caráter daqueles a quem sou apresentada, e acho que o conheço bem o suficiente para imaginar o tipo de mulher que se adequaria à você. Seu caráter não deveria ser acentuado, ardente e original – ela deveria possuir um temperamento manso, uma religiosidade incontestável, um espírito equilibrado e bem disposto e beleza o suficiente para agradar aos seus olhos e gratificar seu orgulho. Quanto a mim, eu não sou tão séria, solene e serena quanto você pensa – você me consideraria demasiadamente romântica – “excêntrica”, você diria; e pensaria que sou satírica e inflexível. O fato é que eu não pretendo fazê-lo de tolo, e jamais o enganaria a fim de me casar e escapar do estigma de ser uma solteirona, porque desse modo comprometeria o futuro de um bom homem a quem não posso fazer feliz.
Adeus! De sua amiga,
C. Brontë”
Brontë permaneceu solteira até um ano antes de sua morte, quando desposou Arthur Bell Nichols, amigo de seu pai, apaixonado por ela há anos. “Currer Bell”, o pseudônimo masculino que ela havia usado para publicar seus romances, era baseado no nome do meio de Nichols. Resta a pergunta: se Brontë tivesse sucumbido aos opressivos padrões de domesticidade feminina da época, seu célebre romance Jane Eyre teria sido escrito?

sábado, 4 de julho de 2015

A vida dos homens gays que tentam manter seus casamentos de fachada

gays no armário
Publicado na BBC Brasil.

Décadas atrás, quando os gays da Grã-Bretanha e de outros países ocidentais tinham de enfrentar o ostracismo e viviam sob a ameaça de serem processados, muitos optaram por se casar e esconder sua sexualidade.
Mas mesmo agora, com uma aceitação crescente, alguns continuam optando pelo mesmo caminho.
Nick, que está na casa dos 50 anos, é casado com sua esposa há 30 anos. Ele é gay.
Ele acha que sua mulher suspeitava há muitos anos de sua sexualidade, mas conta que tudo veio à tona quando ele teve um relacionamento com outro homem.

“Ela (esposa) perguntou se eu queria deixá-la, mas eu não queria. Acima de tudo, ela é minha melhor amiga. Então decidimos que continuaríamos juntos como melhores amigos”, diz.
Nick não é seu nome real – muitos amigos e parentes do casal não sabem que ele é gay e ele prefere se manter anônimo para proteger sua esposa.
Ele conta que, desde o começo, o casamento não era completo, com muitas dúvidas sobre se eles haviam feito a coisa certa. Ele sempre teve dúvidas sobre sua orientação sexual, e isso se agravou com o tempo.

Tolerância

Como muitos outros homens nessa situação, Nick se viu vivendo uma vida dupla. Na superfície, ele era um homem em um casamento feliz. Mas ele também tinha o hábito de ver pornografia gay. E conta que há seis anos, acabou se relacionando com um amigo gay quando ambos ficaram bêbados.
Nick conta que sua esposa ficou irritada e desapontada quando ela descobriu, e que, àquela altura, ele não tinha mais como negar que era gay.
“Senti que era a oportunidade ideal para ser honesto e contar para ela sobre algo que ela já suspeitava. Então, concordamos que eu se eu não fizesse mais isso, não tocaríamos no assunto – e quando voltasse a acontecer, iríamos falar sobre isso.”
Nick admite que seria melhor para sua esposa se ele tivesse admitido antes que era gay. Ela lhe disse que estava desapontada porque ele não havia confiado nela.
“Eu ainda me sinto totalmente grato a ela todos os dias por ela ser tão tolerante”, conta.
O casal optou por permanecer junto não por conta das crianças, já que eles não têm filhos, mas, sim, pelos sentimentos que nutrem um pelo outro.
“Está tudo bem com a minha esposa. Tanto que ainda amamos um ao outro e ainda estamos juntos. Mas as coisas poderiam ter sido bem diferentes.”
Apesar de o casal continuar junto, eles agora dormem em quartos separados.
Nick prometeu à mulher que ele não vai mais ter relações sexuais com outros homens – ele diz que deve isso a ela.
Mas será que ele consegue manter sua promessa. “Espero que sim. Essa é minha intenção. Sinto como se não tivesse tido uma opção no passado, como se algo tivesse sido imposto a mim. Agora estou tomando a decisão que me parece acertada, que é manter o celibato.”

Grupo de apoio

Nick participa de um grupo de apoio chamado Gay Married Men (Homens gays casados), que tem sede na cidade britânica de Manchester e foi fundado há 10 anos. Vários homens viajam de outras partes do país para participar das reuniões.
O fundador do grupo, que prefere ser chamado apenas de John, conta que os homens são, em sua maioria, mais velhos, sendo que muitos casaram nos anos 70 e 80, quando a sociedade era mais hostil aos gays.
Mas por que então eles se casaram?
Nick conta que muitos dos participantes participam do grupo justamente para tentarem se entender.
Andy, de 56 anos, dá seu depoimento: “Alguns achavam que estavam apenas passando por uma fase e que logo encontraria uma mulher que o transformaria em uma homem de verdade, como muita gente dizia.”
John, um professor de Manchester que foi casado por sete anos, diz que ele demorou para perceber que era gay. Ele sabia que sua sexualidade era ambígua, mas ele não tinha nem vocabulário para defini-la.
“Eu não sabia como era um homem gay. Na verdade, eu sabia que os gays era afeminados. E eu não me sentia assim. Logo, eu não poderia ser gay, não é?”

‘Não existimos no mundo gay porque somos casados’

Os membros do grupo estão em diferentes estágios. Alguns apenas suspeitam que sejam gays, enquanto outros vivem ou viveram com suas esposas, sendo que algumas delas já se casaram com outros homens.
John agora é casado com um homem que é seu parceiro há 23 anos. Andy está se divorciando de sua mulher após 30 anos de casamento e quatro filhos.
“Eu ainda a amo. Nós somos muitos próximos. Somos melhores amigos – o que pode soar estranho para alguns, mas temos quatro filhos juntos…”
Mas muitos outros continuam casados seja por conta da expectativa de amigos e parentes ou porque eles têm filhos e não querem que a família se separe.
Jonh diz que muitos homens se veem desesperados e sem nenhum apoio – muitos sofrem de depressão severa.
“Já vimos muitos caírem no choro porque eles estavam decepcionados e agora estão aliviados por terem descoberto que há outros homens na mesma situação. Porque isso é parte do problema, nós somos um mito, não existimos”, conta John.
“Não existimos no mundo gay. Estamos no limite do mundo gay porque somos casados. E não existimos também no mundo hétero. Então, somos invisíveis.”
Os membros do grupo dizem que não julgam pessoas como Nick e que a mensagem principal é a de que esses homens não precisam passar por isso sozinhos.
“Há pessoas que estão conseguindo lidar com sua sexualidade e sua família. Eles ainda se relacionam com os filhos, não foram cortados do relacionamento familiar”, conta Nick.
“Eu, definitivamente, estou mais feliz agora – ser honesto com a minha mulher me tirou um peso das costas.”

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Moça do tempo do Jornal Nacional é chamada de “macaca” e “negra desgraçada” nas redes


A jornalista Maria Julia Coutinho voltou a ser vítima de comentários racistas, desta vez em uma publicação na página do Facebook do Jornal Nacional. Internautas destilaram uma série de ofensas contra ela. Outros usuários saíram em sua defesa e, mais tarde, as mensagens negativas foram removidas do perfil.
Revoltados com as posturas racistas, internautas se manifestaram. Um deles prometeu tomar providências.
“Acabo de fazer um print de todos os comentários dessa postagem e irei levá-lo às autoridades cabíveis. Racismo é crime”, escreveu um dos internautas.
A garota do tempo estreou no Jornal Nacional em abril, e é a primeira negra a assumir a função. Embora receba principalmente elogios, vez ou outra os comentários são negativos. Maju tenta usar as críticas para melhorar seu trabalho — ela passou a incluir imagens de pontos turísticos na meteorologia após sugestão de um telespectador, por exemplo. Mas, com comentários racistas, como no dia em que foi chamada de “cabelo ruim” por um internauta, ela diz não gastar energia:
— Não me abalo. Acho triste, mas sou muito consciente. Cresci numa família que militou no movimento negro. Não perco muito tempo com isso — disse ela, em entrevista recente ao EXTRA.

Captura de Tela 2015-07-03 às 15.35.49

quinta-feira, 2 de julho de 2015

“E ela vivia me agradecendo por tê-la ensinado a gozar com penetração”

image
Meu tio Fábio, um homem sábio do interior, um dia me entregou um livro do Plutarco. Confesso que tremi diante da idéia de enfrentar, na inexpugnável solidão da leitura, as páginas com certeza brilhantes mas inevitavelmente árduas do grego. Mas, prático que é, e conhecedor das limitações de seu sobrinho como leitor, tio Fábio me avisou que desejava que eu lesse somente um trecho marcado numa determinada página.

ADVERTISEMENT
Ali se contava a história de um soldado que salvara a vida de um rei numa batalha. Um sábio imediatamente aconselhou o soldado a fugir. O soldado preferiu ficar, na esperança de ser recompensado pelo rei que salvara. Acabou morto. E logo. Quando terminei de ler essa história, imediatamente me lembrei de outro trecho de livro que tio Fábio me passara. Platão – tio Fábio sempre bebeu na sabedoria grega – contava que Sócrates disse mais ou menos o seguinte aos homens que o condenaram a tomar cicuta: que bem fiz eu a vocês para que me tratem assim?
As duas história tratam do mesmo tema: a ingratidão. E francamente: não sei por que iniciei minha coluna com a dupla história grega de ingratidão humana. Ou melhor. Sei sim. É que eu queria fazer uma conexão entre aqueles episódios e a vida amorosa. O fato cruel e inescapável é o seguinte: o amor é ingrato. O amor tem uma série de virtude: ele ilumina, ele embeleza a vida, ele torna divertido um congestionamento. Mas ele é ingrato como o rei que matou o soldado que o salvara e os atenienses que fizeram Sócrates beber cicuta.
Um amigo meu, Roni Maldonado, outro dia veio desabafar comigo. Ele acabara de romper com a namorada, uma loira de fazer cego olhar para trás, e ela além de gritar-lhe insultos arrebentou a pontapés a porta de seu carro. Roni é essencialmente um ingênuo do amor, um otimista das relações sentimentais. Ele sinceramente achava que, por fatos como ter arrumado um bom emprego para a namorada e num período de depressão ter-lhe até financiado um terapeuta de 400 reais a hora, receberia de volta alguma gratidão, e não uma porta de carro arrebentada a golpes de salto alto.
Tive vontade de apresentar Roni a tio Fábio e pedir a ele (meu tio) que falasse um pouco a meu amigo sobre a gratidão humana. Tive vontade de falar um pouco do soldado e de Sócrates, do rei assassino e da cicuta. Mas apenas balancei a cabeça numa muda expressão de solidariedade a meu amigo ferido na alma. Roni, refleti, passará a vida inteira atrás de uma ilusão, de uma fantasia tão irreal quanto a espada de Artur: a gratidão amorosa. O que você possa ter feito de bom a alguém numa relação amorosa não conta no final. O que vale são apenas os crimes, geralmente imaginários, que você cometeu. Não conheço caso de amor que termine com uma declaração sincera de agradecimento pelos serviços prestados.
Roni me contou, em sua estupefação tola, que até em relação ao sexo ouviu palavras que quase o reduzem a um eunuco da corte de Ramsés. “E ela vivia me agradecendo por tê-la ensinado a gozar com penetração”, me repetia ele. “No final me disse que eu não tinha nenhuma imaginação quanto a sexo. Que eu era um idiota sexual.”
O meu ponto é o seguinte: faça sempre tudo que puder por sua namorada, mulher, amante. Tudo. Agrade-a de todas as maneiras possíveis. Flores, beijos, bom sexo, atenção. Dê tudo. Mas jamais cometa o erro fatal do soldado. Não faça nada esperando gratidão. O amor é ingrato como o rei que matou o homem que o salvara da morte.