quinta-feira, 16 de julho de 2015

O homem que não vendeu sua alma



Paul Scofield (dir.) interpretando São Thomas More no filme
Paul Scofield (dir.) interpretando São Thomas More no filme “A Man for All Seasons” (1966).
Thomas More. Esse nome é relativamente desconhecido para a imensa parte das pessoas. Não é de se estranhar: More viveu na Inglaterra de Henrique VIII e morreu há quase 500 anos. Muitos inclusive diriam que escrever um texto sobre um homem que, sob quaisquer aspectos, nada tem a ver com o Brasil seria pura perda de tempo. Eu acredito exatamente no contrário, e espero poder demonstrar o porquê ao longo destas linhas.
Henrique VIII, como a maioria deve saber, foi rei da Inglaterra. Seu nome é citado de maneira recorrente quando o tema é a reforma protestante, pois foi com o primeiro Ato de Supremacia, em 1534, que o rei foi declarado chefe supremo da Igreja da Inglaterra. O fato é que, mesmo se levarmos em consideração o conturbado e complexo período em que reinou, Henrique VIII era um homem genioso, voluntarioso, de temperamento explosivo e dado a violentos arroubos emocionais. Isso se refletiu na maneira como conduziu a Inglaterra durante seu reinado: subornos, perseguições e manipulação campearam, muito mais do que o esperado de um reinado corriqueiro daquele período, para garantir que os caprichos do monarca se tornassem realidade.
Thomas More era bastante consciente dessas coisas. Tinha essa consciência em 1529, quando foi nomeado Lorde Chanceler da Inglaterra – sendo o primeiro leigo a assumir esse posto –, e a manteve durante seu curto período de exercício da função. Seu senso de justiça e a retidão de seu caráter faziam-no um homem benquisto por quase todos que conviviam consigo. E esses aspectos de seu caráter ficaram ainda mais evidentes quando, em 1532, diante das intermináveis manobras de Henrique VIII para obter a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, renunciou ao cargo de Lorde Chanceler.
A renúncia de Thomas More foi um golpe duro para um homem tão temperamental quanto Henrique VIII. O que mais parecia incomodar o rei era a certeza de que não podia controlar seu antigo Lorde Chanceler como o fazia com outras pessoas da corte. Isso ficou cristalino quando, em 1º de julho de 1533, More recusou-se a comparecer à coroação de Ana Bolena como rainha da Inglaterra. O exemplo de Thomas More não era único: havia muitos ingleses, anônimos ou conhecidos, que enxergavam as ações de Henrique VIII como abusos degradantes.
O ano de 1534 foi determinante para que o poder de Henrique VIII fosse substancialmente fortalecido contra todas as ameaças internas e externas que enfrentava. Em novembro, o Parlamento inglês aprovou o primeiro Ato de Supremacia, que definia Henrique VIII como o único chefe da Igreja da Inglaterra. Esse ato foi seguido pelo Ato de Traições, no qual se definia que era culpado de alta traição qualquer um que “caluniosa e maliciosamente publicar e pronunciar, por escrito ou palavras, que o rei seja herege, cismático, tirano, infiel ou usurpador da coroa”.
Com base nesses dois atos, Thomas More, que silenciosamente recusou-se a tomar um juramento em que reconhecia o título de Henrique VIII de chefe supremo da Igreja da Inglaterra e a licitude de seu casamento com Ana Bolena, foi considerado culpado por alta traição em 1535. Não haviam bastado as pesadas consequências de sua renúncia ao posto de Lorde Chanceler – que lhe trouxera imensos prejuízos de ordem pessoal, familiar e profissional – para que se reconciliasse com o rei. Em 6 de julho de 1535, foi executado por decapitação após pronunciar suas últimas palavras: “Morro um bom servo do rei, e de Deus primeiro.”
O exemplo de Thomas More foi tão intenso que não somente a Igreja Católica o venera como santo – e cujo dia de memória é hoje, 22 de junho –, mas também a Igreja Anglicana o tem por homem venerável. Sua vida e sua morte demonstraram que a consciência de um homem deve ser como uma fortaleza inviolável, e que nenhuma lei iníqua deve ser capaz de burlar a bem formada consciência de uma pessoa. Isso é tão profundo em São Thomas More que o primeiro uso da palavra “integridade” na língua inglesa é atribuído a ele.
Seu exemplo ressoa nos tempos de hoje porque, especialmente no Brasil, temos observado um forte movimento dos parlamentos para a aprovação de leis completamente absurdas. O esforço na aprovação de parâmetros de ensino que violam expressamente a inviolabilidade da educação moral no seio familiar, como se tem visto nas tentativas de inclusão da ideologia de gênero em planos de educação nos mais diversos níveis (municipal, estadual e federal), urge os cidadãos a se manifestarem de maneira decisiva, coesa e forte. Não se trata de uma guerra de agressão, mas de uma guerra de resistência, uma guerra justa.
São Thomas More lembra que “embora seja verdade que Cristo e seus santos apóstolos exortem todos a cultivar a paciência e a perseverança, sem retribuir nem se defender de uma má ação, mas exercitando a tolerância e respondendo o mal com o bem, esse conselho necessariamente não nos obriga, contra a natureza que todos temos em comum, a permitir que alguém nos mate sem razão, nem significa que devemos nos eximir de defender alguém inocente que seja maliciosamente agredido e oprimido” (Thomas More, A Dialogue Concerning Heresies, 1529). Vai mais além: “E, por essa razão, [uma reação] não é apenas desculpável, mas digna de louvor […], uma vez que cada homem está lutando não apenas para defender a si mesmo, por amor de si próprio, mas, em caridade cristã, para a salvaguarda e preservação de todos os outros” (Ibid.).
São Thomas More não é um estadista inglês que viveu uma realidade diametralmente diferente da nossa, mas um homem cuja “segurança de juízo radicada na fé conferiram-lhe aquela confiança e fortaleza interior que o sustentou nas adversidades e frente à morte” (Papa São João Paulo II, Motu Próprio “E sancti Thomae Mori, 31 de outubro de 2000). Ante as constantes investidas que a sociedade brasileira tem sofrido por parte de pessoas mal-intencionadas, dentro e fora do governo, a morte e, especialmente, a vida de São Thomas More são uma poderosa inspiração que não podemos ignorar.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

“Em defesa do elitismo”, por Roger Scruton




Anton von Werner, Kaiserproklamation in Versailles (detalhe), 1882.
Anton von Werner, Kaiserproklamation in Versailles (detalhe), 1882.
Há uma expressão bastante famosa, “a tirania da maioria”, que foi introduzida no discurso político por dois pensadores quase contemporâneos no século XIX. Alexis de Tocqueville, o famoso escritor francês que escreveu “A Democracia na América”, viajou por este país tentando entender como o povo pode sobreviver sem uma aristocracia. Ele ficou abismado ao descobrir que elas sobreviviam, ele mesmo sendo um membro da aristocracia. E, enquanto pensava que a vida humana poderia mudar para uma direção democrática, discerniu um perigo permanente descrito nestes termos: a tirania da maioria – ou seja, o perigo de que toda decisão pública fosse tomada pela maioria para a maioria e desconsiderasse tanto os direitos das minorias quanto a possibilidade de discordância. Ele descobriu que, na América, a tirania da maioria não havia surgido. E, então, perguntava-se: por quê?
John Stuart Mill, o famoso filósofo político inglês, fez um alerta semelhante. Sua preocupação era a de que se houvesse democracia real, o que estava começando a acontecer na Inglaterra e já existia na América, indivíduos, minorias e grupos legítimos perderiam sua proteção contra a opinião da maioria. E, como sabemos, maiorias possuem mais poder que minorias. Se aquelas tivessem o poder de impor sua visão, o que aconteceria às minorias? O que aconteceria com os discordantes?
Tanto Tocqueville quanto Mill conheciam que uma verdadeira ordem política só poderia existir se houvesse discussão sobre a pauta do dia. Só pode haver discussão se há legitimidade em discordar. Mas ninguém realmente gosta de discordância. Então, como torná-la possível? Como conseguir que a maioria aceite o fato de que há quem não faça parte de seu grupo?
E era sabido, ao menos na América, que era necessária uma constituição que, de alguma forma, estivesse acima do sentimento popular e lhe pusesse limites. Há muitas razões para isso, mas uma em particular é o que chamo de “fantasia liberal”: a fantasia de que as pessoas são basicamente boas, enquanto poder e privilégio são ruins. Assim, não deveríamos ter nenhuma dessas coisas cheias de poder como constituições ou estado de direito, pessoas em posições judiciárias, ou pessoas que estejam acima da maioria e digam a ela o que fazer. Isso porque as pessoas, sendo basicamente boas, sempre farão a coisa certa na medida em que forem livres para tanto.
Neste momento, a maior parte de vocês é jovem e ainda não têm uma experiência completa sobre a maldade das pessoas – ou de si próprios. Mas há muitas oportunidades para isso, e isso vai, por certo, mudar com o passar do tempo. Enquanto alguns poderes e propósitos são ruins, outros são necessários para tornar as pessoas boas. Incidentalmente, acho que isso faz parte do que é a educação: esperamos que o tempo de vocês, jovens, neste lugar sirva para seu melhoramento – não apenas tendo mais conhecimento, mas talvez mais habilidade de se relacionar com os outros, de deixar sua marca na sociedade, de cooperar, de ser o tipo de pessoa que não precisa socar o rosto de ninguém para ter o que quer.
Assim, no geral, as pessoas precisam ser geridas. E penso que toda filosofia política precisa, por fim, refletir a respeito do que existe na natureza humana que cria essa necessidade de gestão. Há certos aspectos da condição humana sobre os quais as pessoas evitam pensar. Todos vocês são relutantes em pensar sobre coisas a respeito de si próprios que não são agradáveis nem para vocês, nem para os outros. Mas há também características gerais da condição humana sobre as quais sentimos dificuldade de pensar.
A primeira é inveja e ressentimento. As pessoas se sentem ressentidas sobre os bens, o status, os talentos dos outros, e isso é normal. Nietzsche, o filósofo alemão do século XIX que vocês certamente já devem ter conhecido, achava que o ressentiment – ele usava a palavra francesa por razões que só ele sabia – era a posição normal das comunidades humanas. Ao fim e ao cabo, é o ressentimento que faz o mundo girar, e é por isso que o mundo é tão feio. E Nietzsche não fazia realmente parte do mundo. Ele era um tipo bem ranzinza. Ele advogava um modo muito mais solitário de pensar sobre as coisas do que a maioria de vocês acharia adequado. Deixando de lado sua autointitulada “filosofia positiva”, creio que a maioria das pessoas reconheceria que ele tem alguma razão. Claro, as pessoas se ressentem umas das outras, e uma das coisas que nos causa mais ressentimento é o fato de sabermos que os outros estão melhores do que nós. E esse ressentimento sempre estará ali – especialmente quando estamos em estreita competição por algo que queremos muito. Competimos por, digamos, um emprego ou um amor ou uma posição social ou status, e vemos outra pessoa conseguindo isso. E não conseguimos controlar esse sentimento.
Há, entretanto, outra parte das pessoas que precisa de gestão. Isso interessava muito mais a John Stuart Mill, e é o desejo por ortodoxia. Mill acreditava que a ortodoxia, ao invés da liberdade de opinião, era a situação normal das sociedades humanas. Ele acreditava que as ortodoxias prevaleciam e que nos refugiávamos nelas. Sabemos que, se repetirmos o que todo mundo está dizendo, mesmo que não acreditemos que seja plenamente verdadeiro, estaremos a salvo, não seremos atacados. E se destacar e dizer o que é geralmente reprovado, mesmo que seja evidente para todos, requer coragem.
Outro traço da condição humana – muito enfatizado pelo filósofo, crítico e antropólogo francês René Girard – é que temos uma intensa necessidade de culpar os outros, de perseguirmos o herege. Se a sociedade está numa posição difícil, se as pessoas discordam profundamente umas das outras, incapazes de concordar sobre algum assunto corrente, ou talvez estejam enfrentando alguma ameaça, ajuda de alguma forma apontar um culpado. Não interessa que ele seja realmente culpado: acusamo-lo e o perseguimos, e todos nos unimos contra ele e nos sentimos bem por isso. Todos passamos a achar que encontramos o problema e estamos nos livrando dele. Foi isso, evidentemente, que Hitler fez com os judeus na Alemanha no período entreguerras. Ele disse: “Não se preocupem. A razão de a nossa sociedade estar em caos total não é porque eu estou no comando, muito pelo contrário: é porque de todos esses judeus que estão se unindo contra nós, conspirando para solapar o comportamento puro da maioria ariana. Então, nós os perseguiremos e nos livraremos deles.” E creio que, se olharem para a história, vocês verão que culpar os outros é uma dos traços mais importantes da sociedade humana.
Todas essas três características apontam para o fato de que o perdão é difícil tanto para comunidades humanas quanto para indivíduos. É difícil perdoar as pessoas por estarem melhores que nós mesmos, perdoá-las por terem uma opinião própria, perdoá-las por serem os hereges. E penitência é algo raro. As pessoas não admitem com frequência suas culpas, nem põem em prática algum tipo de penitência ou arrependimento para suavizar ou consertar aqueles erros. E creio que todos vocês sabem disso a partir de suas próprias vidas. E, entretanto, nós também sabemos – em parte por causa da nossa herança judaico-cristã – que o perdão é absolutamente fundamental para o tipo de ordem social de que gozamos. As pessoas podem viver em paz umas com as outras nesta sociedade porque elas estão prontas a perdoar os erros dos outros ou confessar os seus próprios.
Agora, sob a luz de tudo isso, vocês podem ver porque é perigoso ser – ou querer ser – um membro da elite. E é razoavelmente normal na América que as pessoas peçam desculpas por o serem. Desculpar-se é algo excelente, mas pode ser feito exageradamente. Todos vocês estão habituados com o hábito americano de pedir desculpas quando alguém tromba com vocês na rua – vocês espontaneamente assumem a culpa por tudo que acontece de errado para ter uma espécie de relação pacífica preventiva. Desculpar-se, na América, é uma espécie de saída pacífica ao horror da sociedade humana. Toda vez que isso se impõe a vocês, vocês dizem “desculpe, desculpe” e seguem adiante. Bem, não digo que isso é algo ruim, mas certamente não resolve todos os problemas.
As consequências dessas características da condição humana são que, em primeiro lugar, existe um certo clamor por igualdade – e este é evidentemente o caso, especialmente sociedade americana. Em todas as esferas hoje há o desejo de equalizar. As pessoas não gostam de hierarquias e privilégios, e há uma disposição natural em dizer que eles são imerecidos. Quando alguém invoca algum tipo de posição hierárquica, esta questão é levantada: “Quem é ele? Quem ele pensa que é? E com que direito ele se acha superior a mim?” E, assim, organizações hierárquicas, como a Igreja Católica, são frequentemente atacadas como anacronismos. Dizem: “Isso caía bem na Idade Média, mas não precisamos de coisas assim hoje – na verdade, elas são inerentemente incompatíveis com o tipo de sociedade que se desenvolveu desde então.” E a Igreja Católica, como, estou certo, vocês sabem, sofre disso – e outras coisas, também – porque as pessoas não aceitam a ideia de que há uma autoridade concedida do alto, incorporada na pessoa e no ofício do Papa e distribuída por todo o episcopado e além, até o fiel comum. Em oposição a essa ideia temos as igrejas evangélicas, que querem fazer tudo de baixo para cima dizendo que o Espírito Santo nos visita a todos igualmente.
Novamente, riqueza e privilégio, cultura e intelecto, todos são alvos de ressentimento em nossa sociedade. Isso porque é muito difícil que características não compartilhadas por nós nos sejam aprazíveis. Sentir prazer com a boa sorte de alguém é algo raro. Isso envolve um trabalho de perdão: é necessário perdoar o outro por ser melhor do que você, por ter conseguido a garota que você queria, e assim por diante. E, como disse, o perdão é raro. Ainda assim, sentir prazer pelo sucesso do outro é uma das virtudes tradicionais do povo americano. E acho que essa é uma das coisas que faz dessa sociedade algo tão promissor. Na Europa, é extremamente raro que as pessoas sintam prazer pelo sucesso de alguém que não sejam elas próprias. E, mesmo assim, a primeira coisa que querem fazer com esse sucesso é escondê-lo, caso alguém possa saber sobre ele. Aqui, no entanto, quando se é bem-sucedido, a pessoa vai e diz: “Isso, eu consegui!” E as pessoas que não conseguiram irão, mesmo assim, dar-lhe um tapinha nas costas e dizer: “Ótimo, estou feliz por você.” Isso em parte acontece porque as pessoas nesta sociedade reconhecem que há oportunidades para elas também. Ver alguém conquistando algo reafirma que elas poderão, algum dia, conseguir o mesmo também.
Entretanto, por causa desse legado de ressentimento e da raridade do perdão, há um desejo de derrubar os grandes e fazer distinções inexistentes ou inúteis. Não em todas as esferas – e acho isso muitíssimo interessante. No esporte, por exemplo, o talento é ainda universalmente reconhecido e amplamente louvado. De alguma forma, sentimos que não somos julgados pelo sucesso desportivo dos outros. Eu jamais teria alguma chance no futebol americano, ou mesmo em qualquer outro esporte, então eu não me importo. Digamos que eu moldei a minha vida de modo a não competir naquele âmbito. Mas é um ponto muito interessante: por que as pessoas, no geral, não se importam de verdade com distinções no mundo do esporte? Uma sugestão é óbvia: não poderia haver um mundo do esporte se não houvesse pessoas que se destacassem – e como poderíamos praticar alguma coisa se não tivéssemos o objetivo de ganhar? Faz parte da própria essência do esporte. Mas as pessoas duvidam que seja essencial a outras coisas que são muito importantes para nós.
Há uma desvantagem nisso tudo. O sociólogo alemão Max Weber possui um famoso argumento de que há em toda comunidade humana um motivo para os devedores se juntarem para espoliar seus credores. E vemos isso acontecendo também no processo político: a maioria vota em espoliar os bem-sucedidos porque acreditam que a riqueza realmente não pertence àqueles que a conquistaram. Pelo contrário, ela é um bem social e deveria ser distribuída de maneira mais justa. E isso poderia ser feito através do Estado. Podemos taxar os ricos e distribuir o dinheiro entre nós.
E muitos filósofos políticos justificam isso – não tanto nos duros termos que acabei de usar ou nos que Weber usa. Weber apenas fala a verdade. A filosofia política é uma maravilhosa tapeçaria de mentiras entremeadas para esconder esse tipo de verdade. Mas John Rawls, em seu famoso livro sobre justiça, pensa essencialmente nos mesmos termos: a riqueza é um bem social e não é próprio até ser distribuído. Além disso, ela deve ser distribuída de acordo com um plano que leve em consideração as necessidades sociais de todas as pessoas, e que, portanto, deve ser posto em ação pelo Estado. Assim, em virtude do sentimento de que os bens são realmente socialmente possuídos em alguma medida, a maioria das pessoas vota não apenas para redistribuir os bens econômicos da sociedade, mas também, em alguma medida, para abolir a ameaça que a educação universal representa.
Há um movimento na direção de um currículo sem distinções – de forma que todos consigam um “A” e se formem com menções honrosas. E isso, é claro, tem o efeito de diminuir o valor de um título a ponto de que não vale mais a pena ter um. Isso representa uma ameaça ao tipo de educação que vocês tentam tão arduamente alcançar. Eu sei que vocês estão se esforçando, ou não teriam vindo aqui hoje. Vocês estão se esforçando não para obter um documento sem valor, mas receber algo que realmente mostre que vocês venceram, que seu trabalho valeu a pena.
Todavia, como dizíamos, a maioria não consegue reconhecer cultura genuína, que é o domínio de uma minoria, da cultura falsa, que todos nós podemos adquirir. E isso é algo que preocupa muito quem advoga pela música clássica, pois ele sabe que a tradição clássica da música contém em si conquistas, conhecimento e um mundo de sentimento preciosos que requerem um certo esforço para serem descobertos. Muitas pessoas dizem: “Não, não vamos nos preocupar com isso. Fiquemos apenas com a Lady Gaga.” Mas, sem dizer nada a respeito de Lady Gaga, ainda vale a pena fazer esse esforço. Até você tê-lo feito, todavia, você não sabe que vale a pena. Há muitas coisas assim na vida humana: você conhece o valor de algo apenas quando tem contato com ele. Mas para ter contato com ele, você precisa ser convencido do seu valor. É uma espécie de paradoxo, não é? Lembra o famoso paradoxo de Groucho Marx sobre ser membro de um clube: “Por que eu faria parte de um clube que me aceitaria como membro?”
Como um resultado dessas questões, as pessoas começam a suspeitar da própria ideia de julgamento, concluindo que julgar é algo errado. E quem julga está se tornando uma espécie de pária em nossa sociedade. Há algumas consequências desse fato. Uma é a tentativa de espoliar e redistribuir os bens dos bem-sucedidos. O problema com isso, claro, é que penaliza o sucesso a ponto de não haver mais bens. E foi isso que vimos na Europa comunista: o confisco de todos os lucros de qualquer empresa levou ao desaparecimento desses lucros, de modo que não havia nada a redistribuir e a sociedade se tornou cada vez mais pobre. Mas, mesmo assim, a maioria clama por mais, o que, como resultado, força o governo a tomar emprestado do futuro. Temos que admitir que estamos acostumados não apenas com as oportunidades, mas com os direitos que nosso governo nos prometeu, ainda que haja cada vez menos capacidade econômica para renovar esses direitos. E também testemunhamos isso em nossas sociedades através do mundo ocidental – esse empréstimo do futuro sobre o qual muitas pessoas estão extremamente alarmadas hoje em dia. O que acontece quando os credores dizem “é hora de nos pagar”? Nós vimos o que aconteceu na Grécia e em Portugal recentemente. A Grécia, é claro, foi resgatada pela União Europeia, mas apenas para transferir o problema para o resto da UE. O problema não foi, de fato, resolvido. E, assim, vemos um endividamento crescente e uma preocupante crise fiscal, e muita gente diz que o dia do acerto de contas tem que vir. Mas não sabemos como ele será.
Outra consequência é a destruição da alta cultura – o tipo de cultura que as universidades deveriam estar comprometidas a fornecer. Poucas pessoas possuem um entendimento crítico de seus próprios motivos. Os apetites triunfam sobre a reflexão. E as pessoas estão sempre à procura de quem culpar. E isso, por sua vez, conduz à hostilidade contra qualquer forma de distinção e a uma espécie de expansão da cultura da mediocridade. “Está certo eu ser o que sou, e não me importo se você acha que é melhor do que eu. Sou feliz do jeito que sou.”
Mas há um lado positivo nisso tudo: nós podemos superar isso. Todos sabemos que, se você manter sua cabeça baixa, as pessoas os deixarão em paz. E isso já é, pelo menos, uma solução temporária para o problema. Pela minha vida afora, eu, infelizmente, não mantive minha cabeça baixa, e esta é uma parte bastante machucada do meu corpo. Mas ela ainda está no seu lugar, e eu continuo perseverando. E agora, entrando na casa dos setenta anos, não importa realmente o que acontece comigo.
Mais importante, nós aceitamos a necessidade de proteger minorias, mesmo minorias educadas. E isso acontece porque admitimos em nossos corações, especialmente se temos filhos, que queremos oportunidades não apenas para nós mesmos, mas para eles. E, portanto, precisamos de uma cultura que distinga o sucesso do fracasso. Podemos não saber em que área nossos filhos competirão, mas, mesmo assim, sabemos que há diferença entre sucesso e fracasso, e certamente não queremos que eles fracassem. Então, as pessoas não estão totalmente comprometidas com a mediocridade. Creio que todos os pais tem um desejo por parâmetros na educação. E todos os que estão fazendo sacrifícios para alcançar uma visão de mundo educada aceitam que deve haver parâmetros. Por que, afinal, eles estariam se sacrificando?
Além disso, pais são competitivos. A competição reside na natureza do processo reprodutivo. A reprodução ainda não é algo do passado, o que, tenho certeza, vocês sabem por estarem nesse recinto. Eu sei que isso não vira manchete hoje e que os números estão em queda, mas, ainda assim, as pessoas se importam com a reprodução, ainda que seja apenas como um subproduto involuntário, como algo que acontece. E aí lá estão esses filhos, e nós queremos que eles tenham sucesso. A competição reside na natureza mesma desse processo. Todos aqui que tem filhos sabem disso. Você está no comando da vida dessa coisinha, você irá protegê-la, você irá garantir que ela esteja bem. E isso é uma atitude essencialmente competitiva porque o mundo é cruel. Verdadeiros igualitários, pessoas que creem que a igualdade é tudo, tendem a não ter filhos – ou, ao contrário, como nossos políticos, garantem secretamente vantagens para seus filhos enquanto impõem a mediocridade a todos os outros.
Assim sendo, oferecerei umas poucas defesas contra a mediocridade. Como disse, minorias tem direitos, e um deles é o direito de associação. O direito de associação serve à proteção de seus bens. Nós temos o direito de montar nossas próprias escolas e faculdades. Em uma cultura majoritária, essas duas coisas estão ameaçadas – em terras britânicas, elas estão sob ameaça. Sob um governo trabalhista, talvez não seja possível que escolas privadas existam mais. Mas, enquanto acharmos que há direito de associação, as pessoas irão se unir e tentar resgatar a si mesmas. E talvez seja assim que as coisas devem ser.
A lição do século XX, no entanto, é a de que tudo o que é belo foi preparado como um sacrifício. Se você olhar para o que aconteceu à Europa no século XX – se você olhar para a cultura verdadeiramente mais bela que já existiu –, você verá que tudo de belo nela foi sacrificado. Não apenas as pessoas, mas as cidades, as instituições, os belos sistemas legais que herdamos, tudo foi sacrificado – exceto na Inglaterra, e mesmo lá foram fatalmente feridos. E creio ser isto algo que todos os seres humanos devem, no fim, reconhecer: que tudo de belo é preparado como um sacrifício.
Mas nós devemos seguir adiante, e, em certa medida, nós podemos. Deveríamos lavrar constituições que contém algo da velha ideia de herança – constituições que são obstáculos às maiorias de modo que não tiranizem as minorias que querem melhorar a si próprias. Então, precisaríamos de um discurso político que ocultasse esse fato da maioria. E é aqui que as coisas ficam difíceis. Nós temos que dizer, no fim, umas poucas mentiras. Temos que dizer: “Claro, esta sociedade é pautada pela igualdade.” E os americanos sempre disseram isso, ainda que tivessem uma constituição que foi cuidadosamente feita para impedir que isso fosse verdade. A constituição americana foi feita para proteger as minorias e a capacidade das pessoas em avançar e obedecer a parâmetros mais altos do que a maioria seria capaz de aguentar.
Essa é a tarefa mais árdua, mas creio que os jovens conseguem levá-la a cabo. Eles instintivamente querem encarar suas atividades como conquistas. Enquanto isso, vocês devem aprender a praticar a arte do ocultamento. Há uma bela palavra em árabe para isso: taqiyya. Ela foi introduzida no pensamento dos xiitas iranianos na Idade Média, quando viviam sob governos otomanos ou sunitas que proibiam sua forma particular de religião. E a palavra taqiyya vem, na verdade, da palavra para santidade. Diziam eles: “Você deve praticar estas coisas: toda vez que for confrontado por alguém, aprenda a dizer que você acredita exatamente no que ele acredita, que vive sua vida exatamente como ele vive. E em seu interior, sofrendo enormemente, mas não se revelando, estará a alma que reconhece a verdade.” Evidentemente, é uma forma exagerada de descrever a condição de pessoas como eu, mas ainda é verdade que, de vez em quando, devemos fazer um esforço para nos ocultarmos. Neste momento, não estou me esforçando para ocultar o que penso, e, por isso, estou numa posição perigosa. Eu posso me tornar como aquela vítima sacrificial, o bode expiatório.
Mas esse é o problema que nos aflige. O conselho que deve ser dado não deve ser dado abertamente. E você deve ocultar sua distinção em muitas circunstâncias da vida moderna. Você não deve necessariamente mostrar que é menos ignorante que seu próximo. Não confesse sua cultura, nem faça qualquer esforço para criticar a falta dela. Condene-se a si mesmo, alegremente, como um idiota igual a ele. Um de meus velhos alunos de Princeton veio à minha casa outro dia. Ele está trabalhando em uma prestigiosa instituição financeira em Londres, e eu disse a ele: “Bem, é ótimo que você conseguiu. É incrível. Vale todo o esforço que você colocou em aprender línguas clássicas e as obras de Goethe e toda aquela filosofia que lhe ensinei.” E ele disse: “Sim, mas muito mais útil foi aprender a falar sobre futebol, porque é a única coisa sobre a qual falam no escritório. Uma vez, deixei escapar um comentário sobre Goethe e ficou bastante claro que minha carreira estava em jogo.” Eu respondi: “Sim, é claro, mas eu não lhe alertei sobre isso?” E ele disse: “Sim, desculpe, mas eu havia esquecido.”
No fim das contas, você deve humildemente admitir o direito do outro, como membro da maioria, a determinar o futuro da sociedade em que você está incluído. Não deixe transparecer que você tem o desejo secreto de perpetuar outro tipo de cultura. E que tipo de cultura seria? Sobre isso serão minhas observações finais.
Eu acredito que queremos perpetuar, especialmente nas universidades, uma cultura que é baseada no conhecimento e na distinção entre verdadeiro conhecimento e mera opinião. Obviamente, é muito difícil fazer uma distinção pessoal de nossas opiniões entre aquelas que são verdadeiros conhecimentos e as que não são, pois todas são, do nosso ponto de vista, a mesma coisa. Mas, no contexto de um debate aberto em uma universidade, vocês conseguirão perceber que suas opiniões possuem diferentes pesos. Algumas delas são frágeis e não significam nada. Elas não entram na balança da discussão de maneira efetiva. Mas outras, quando vocês as expressa corretamente, fazem com que os outros acreditem nelas e as aceitem, pois estão alicerçadas em algo mais.
E esse conhecimento precisa fazer juízos e estabelecer parâmetros, precisa distinguir o verdadeiro do falso, o bom do ruim, o virtuoso do vicioso, e assim por diante.
Ele deve respeitar, penso eu, instituições, heranças e tradições duradouras. Essa é uma das coisas mais difíceis para as pessoas da minha geração passar para as pessoas da sua geração. Obviamente, as instituições que herdei mudaram horrivelmente nesses cinquenta anos em que tive consciência delas. Mas eu acredito ainda, não tanto no valor de todas elas, claro – algumas delas mudaram e outras desapareceram acertadamente –, mas naquela herança nuclear que é responsável por eu estar aqui hoje falando o que penso. E eu quero passar isso adiante. E eu acho que isso só pode ser passado adiante se respeitarmos a ideia de que é algo que já existe.
Está ali porque nos foi legada por pessoas que fizeram sacrifícios para que isso pudesse acontecer. E nós, penso eu, devemos aprender a honrar esses sacrifícios e fazer nossa parte para perpetuar essas instituições e tradições. Isso não significa que temos que aceitar tudo sobre elas. Nós temos, pelo contrário, que oferecer nossa própria contribuição viva a elas. E elas precisam ser consertadas de diversas formas.
Mas, acima de tudo, nós temos que manter viva a memória coletiva do que nós somos enquanto povo. Isso não se reduz meramente ao que a maioria das pessoas coincidentemente quer agora. Na América, especialmente, a natureza demográfica do país muda rapidamente de geração para geração, e, ainda assim, há uma ideia de que nós devemos ficar juntos e que compartilhamos algo que herdamos. Queremos mudar aspectos disso, mas, sem esse algo, não seríamos capazes de viver pacificamente no mesmo lugar. E penso que isso envolve um trabalho ativo de memória no qual confrontamos algumas das coisas ruins que aconteceram e, todavia, resgatamos delas as coisas boas que queremos perpetuar. Acho que essa memória coletiva deve, por sua vez, estar aberta à ideia de conquista e às aspirações e aos ideais que as pessoas ainda podem ter nas atuais circunstâncias.
Roger Scruton é filósofo e um dos maiores nomes do pensamento conservador do último século. Publicou mais de trinta obras que tratam de estética, política e filosofia – dentre elas, “Pensadores da Nova Esquerda” e “Beleza”, ambos lançados em português pela É Realizações, e “How To Be a Conservative”, que está sendo traduzido por Bruno Garschagen. O presente artigo é a transcrição da conferência inaugural do Future Symphony Institute, feita em setembro de 2014, na Universidade de Baltimore, nos Estados Unidos, e sua tradução foi gentilmente autorizada pelo autor através do referido instituto.

terça-feira, 14 de julho de 2015

“Ecce Homo!”: a desumanização da divergência



Detalhe de "Ecce Homo", Antonio Ciseri, 1871.
Detalhe de “Ecce Homo”, Antonio Ciseri, 1871.
Sexta-Feira da Paixão. De acordo com a tradição cristã, foi neste dia que Jesus Cristo foi vítima de um julgamento injusto, declarado culpado sob falsas acusações, transformado em farrapo humano por suplícios terríveis e, por fim, pregado a uma cruz, onde agonizou até a morte. Para todo cristão, todo esse martírio de Cristo, que é Deus feito homem, é o exemplo maior de amor, a derradeira lição que nos legou e o sacrifício derradeiro pelo qual redimiu todos os pecados da humanidade. Para qualquer um que não professe a fé cristã, mas que tenha um mínimo de sensibilidade, a Paixão de Cristo é o exemplo maior do ponto a que pode chegar a injustiça caprichosa do homem.
Nos dias em que vivemos, uma coisa que é explícita e assombrosa é a tendência de desumanizar aqueles que divergem do que acreditamos. Irritar-se, exaltar-se, perder a compostura, tudo isso é algo normal – poucos têm sangue de barata, afinal de contas –, mas desumanizar o outro é algo totalmente diferente. Para um número cada vez maior de pessoas, o divergir em assuntos de cunho social, político ou econômico transforma o adversário em uma criatura horrenda, uma espécie de monstro abominável que representa uma ameaça que deve ser eliminada a todo e qualquer custo.
Agindo sob essa lógica, promove-se toda sorte de injustiças: ataca-se a honra, zomba-se do sofrimento, inventam-se mil e uma mentiras, e, como já tivemos oportunidade de presenciar ao longo de nossa história, tira-se a liberdade e a vida de pessoas que discordam. O grande G. K. Chesterton foi preciso ao definir esse tipo de comportamento chamando-o de fanatismo: “O fanatismo consiste em um homem convencer-se de que outro deve estar errado em tudo, pelo fato de estar errado em alguma coisa”.
Isso pôde ser visto, por exemplo, ontem, com a morte de Thomaz Alckmin, filho caçula do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Não foram poucos os formadores de opinião “progressistas” que se adiantaram em dizer que a morte de Thomaz lhes era indiferente por ser apenas mais uma morte. Outros, como a blogueira Lola Aronovich, professora da Universidade Federal do Ceará, foram ainda mais longe e não conseguiram disfarçar seu maligno prazer diante dessa tragédia.
Postagens de Lola Aronovich sobre a morte de Thomaz Alckmin. As mensagens foram apagadas. (Fonte: criticapolitica.org)
Postagens de Lola Aronovich sobre a morte de Thomaz Alckmin. As mensagens foram apagadas. (Fonte: criticapolitica.org)
Quando Eduardo Campos, então candidato à Presidência da República pelo PSB, faleceu em 13 de agosto do ano passado num trágico acidente de avião, eu não tive receios em expressar publicamente meu pesar por aquele evento terrível. Nunca fui particularmente fã de Campos, e, a bem da verdade, sempre tive um aberto desprezo pelo seu avô, Miguel Arraes, e seu partido. Entretanto, eu realmente senti a morte de Campos. Foi algo chocante. E me chocou justamente porque, apesar das nossas diferenças ideológicas, ele era, assim como eu, humano: ele tinha virtudes e vícios, qualidades e defeitos, amigos e inimigos e família.
Essa tática de desumanização do adversário é algo amplamente usado justamente por aqueles que se definem como “progressistas” e defensores da diversidade, da pluralidade e da dignidade humana. Suas sementeiras estão sempre fartas de ódio, que estão sempre a espalhar. Foi esse mesmo ódio que levou os mestres da lei e os sacerdotes a incitarem o povo a pedir a libertação de Barrabás, um homicida, e a condenação de um inocente. Foi exatamente esse mesmo ódio que provocou tanto derramamento sistemático de sangue na Rússia, na Espanha, na Alemanha e em tantos outros lugares.
Nós, que nos assumimos conservadores, precisamos estar bastante vigilantes. O espírito pode estar pronto, mas a carne é fraca, e cair na tentação de desumanizar nosso adversário, aquele que de nós diverge, é render culto ao mesmo deus que ceifou centenas de milhões de vidas nos últimos 100 anos. Voltemo-nos, cristãos ou não, nesta Sexta-Feira Santa, para Cristo, que “era amaldiçoado e não fazíamos caso dele” (Is 53, 3). Que essa grande injustiça cometida contra um inocente nos faça não engrossar o coro daqueles que gritaram “Crucifica-o!”.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Por que todo mundo usava peruca na Europa dos séculos XVII e XVIII?

Por que todo mundo usava peruca na Europa dos séculos XVII e XVIII?

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Não era todo mundo, apenas os aristocratas. A moda começou com Luís XIV (1638-1715), rei da França. Durante seu governo, o monarca adotou a peruca pelo mesmo motivo que muita gente usa o acessório ainda hoje: esconder a calvície. O resto da nobreza gostou da idéia e o costume pegou. A peruca passou a indicar, então, as diferenças sociais entre as classes, tornando-se sinal de status e prestígio. Também era comum espalhar talco ou farinha de trigo sobre as cabeleiras falsas para imitar o cabelo branco dos idosos. Mas, por mais elegante que parecesse ao pessoal da época, a moda das perucas também era nojenta. "Proliferava todo tipo de bicho, de baratas a camundongos, nesses cabelos postiços", afirma o estilista João Braga, professor de História da Moda das Faculdades Senac, em São Paulo.
Em 1789, com a Revolução Francesa, veio a guilhotina, que extirpou a maioria das cabeças com perucas. Símbolo de uma nobreza que se desejava exterminar, elas logo caíram em desuso. Sua origem, porém, era muito mais velha do que a monarquia francesa. No Egito antigo, homens e mulheres de todas as classes sociais já exibiam adornos de fibra de papiro - na verdade, disfarce para as cabeças raspadas por causa de uma epidemia de piolhos. Hoje, as perucas de cachos brancos, típicas da nobreza européia, sobrevivem apenas nos tribunais ingleses, onde compõem a indumentária oficial dos juízes.

sábado, 11 de julho de 2015

Relações ‘mutuamente benéficas': cada vez mais mulheres trocam sexo por ajuda para pagar os estudos

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Publicado na BBC Brasil.

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É uma tendência em alta na Grã-Bretanha: mulheres buscam homens maduros e economicamente saudáveis que lhes ofereçam dinheiro para bancar estudos ou dar “mesadas” em troca de uma relação – os chamados “sugar daddy”.
Estas relações são conhecidas como “mutuamente benéficas” ou “transacionais”. Mas seria a busca por um “pai rico” uma forma aceita socialmente para se referir ao trabalho sexual?
Freya tem 22 anos. Veste uma calça de academia e uma camiseta gasta. Se expressa de forma natural e confiante.
A jovem decidiu começar a dormir com homens mais velhos em troca de dinheiro ainda na universidade. “Eu amo sexo”, diz Freya. “E, você sabe, eu sou muito boa nisso. Então, conquistar um ‘sugar daddy’, ou dois, foi uma decisão fácil”.

Ela é uma das muitas estudantes na Grã-Bretanha que, cercadas por dívidas, se tornaram “sugar babies”: jovens mulheres que aceitam relações com homens mais velhos e ricos em troca de dinheiro e presentes.
“Meu ‘sugar daddy’ casado me deu cerca de 1 mil libras (cerca de R$ 4,8 mil) por uma noite. Ele estava interessado apenas em sexo. Já o meu ‘sugar daddy’divorciado me dava entre 1 mil e 2 mil libras como mesada”, diz.
Freya diz ter trabalhado duro para pagar as contas durante a universidade. “Trabalhava em dois empregos durante meu primeiro ano”.
“Era horrível – ganhava 5 libras (cerca de R$ 24) por hora trabalhando num bar e isso estava atrapalhando meus estudos”.
Apesar de reconhecer que o que fazia era um trabalho sexual, Freya diz acreditar que sempre manteve certo grau de controle. “Eram homens muito atraentes – eu escolhi com muito cuidado”.
“Sim, na verdade, é prostituição, mas acho que existe um estigma ridículo ligado a esta palavra”.

Consentimento materno

Mary, mãe de Freya, também aceitou ser entrevistada pela BBC, e não parecia incomodada pelas decisões da filha.
“Na verdade, eu tenho muito orgulho dela”, diz Mary. “Acho que é uma coisa muito valente de se fazer e estou feliz que ela me consultou. Claro que meus amigos foram bem contra”.
Mas o dinheiro faltava na família, diz a mãe, divorciada e com outros filhos que também iriam à universidade.
“Assim que eu vi que Freya estava realmente feliz e gostava do que fazia, não vi nenhum problema e achei que isso era uma boa solução”, diz Mary.
“Todas as crianças nascem com talentos. Minha família nasceu com beleza e atrativo sexual. É como uma commodity”.
Sites de relacionamentos que intermedeiam contatos com “sugar daddies” não definem suas atividades como um serviço de venda sexual, já que isso os colocaria sob risco do ponto de vista legal. Mas só os mais ingênuos não percebem a real finalidade destes espaços.
“Inscreva-se na Universidade Sugar Baby hoje e consiga um patrocinador generoso que pague sua educação”, diz uma voz feminina num anúncio online.
Angela Jacob Bermudo é diretora de imprensa desta página. “Não acredito que (os usuários) esperem por sexo. Diria que aspiram por ele”, diz.
“Uma ‘sugar baby’ conquista estabilidade financeira com uma mesada”, diz Angela. “E (ganha) um mentor e oportunidades de networking. Na Grã-Bretanha, estudantes são quem mais procuram este tipo de serviços”.

Falta de namorado

‘sugar baby’ Alana, de 28 anos, ri. “São as jovens garotas que têm o poder! Eu tenho o poder”.
Ela considera esta atividade como um parque de diversões para adultos. “Perdi a conta do número de bolsas Louis Vuitton, das férias – Nova York, as Bahamas”.
Alana diz que, atualmente, tem 13 “pais ricos”, mas que chegou a ter ao menos 40 durante os anos. Quase todos são investidores. Ela diz ter dormido com apenas três deles.
“Sempre termino ganhando aquilo que quero. E esta é a grande razão de tudo isso. Você tem que saber jogar este jogo”.
A jovem, entretanto, diz sentir falta de um namorado.
“Às vezes você se sente sozinha. À noite, enquanto assiste a um filme, e gostaria da companhia de alguém. Não só um homem, mas seu parceiro, seu namorado”.

“Mas isso seria bom o bastante para mim agora? Seria satisfatório?”
Mike, de 38 anos, trabalha em tecnologia digital e diz não ter tempo para encontrar uma parceira. Assim, nos últimos três anos, optou por estes relacionamentos.
Paga sua atual companheira 2 mil libras, além de 1 mil libras em compras. Ele, agora, dá de costas para relacionamentos tradicionais.
“Já passei por isso, tentei, fiz… Estou dando dinheiro para alguém que está decidida a ter um certo tipo de relacionamento. Há expectativas de ambos os lados”, diz ele, que se define solteiro.
Mike espera ter relações sexuais com a mulher a quem paga. Gosta que seus relacionamentos sejam monogâmicos e de longa duração e fala de forma carinhosa sobre as garotas com quem está.
“O máximo que eu gastei num relacionamento foi cerca de 40 mil libras (cerca de R$ 195 mil)”, disse. “Por um fim de semana”.
Ele admite ter se decepcionado com relacionamentos anteriores nos quais meninas não lhe foram agradecidas. Mas diz que nunca se sentiu usado.
“Vejo meus pais: eles têm 70 anos e estão casados há mais de 50. Até hoje, meu pai coloca dinheiro na conta da minha mãe toda semana. Qual a diferença?”

Aproveitadoras?

Catherine, de 21 anos, estuda Direito numa boa universidade britânica. Diz que, assim que iniciar seus estudos finais, deixará seu relacionamento.
Ela elogiou seu “pai rico” Mark como “o homem mais carinhoso do mundo, que literalmente respeita todas as minhas decisões”. Ele paga seu aluguel e taxas escolares.
Catherine diz ter deixado claro desde o começo que não gostaria de uma relação física com Mark. Mas ela admite que se sentiu ruim “por aceitar dinheiro e não dar nada em troca”.
Concordou, então, com um relacionamento físico e, logo depois, viu sua remuneração subir de 700 libras para 1,2 mil libras por mês.
“Ele quer que eu seja de uma certa maneira. Ele quer que eu faça várias coisas para ele, fisicamente e mentalmente”, reclama. “Mas ele é tão generoso para mim. Você sabe, é dinheiro fácil”.
Por outro lado, Raquel, de 21 anos, vê a situação como perigosa. Uma tímida estudante de idiomas em outra prestigiada universidade, ela se inscreveu num site de relacionamentos sugar enquanto ainda estava no colégio, após ouvir seus pais discutindo por dinheiro.
Viu nessa saída uma “maneira rápida de conseguir dinheiro sem ter que fazer muito”.
Seu primeiro encontro terminou de maneira brutal após o homem com quem havia saído tê-la levado a um estacionamento e tentado violentá-la.
Mas a necessidade em conseguir dinheiro levou-a a tentar novamente. Por 18 meses, Rachel encontrou-se com um homem de cerca de 50 anos. Nunca dormiu com ele.
“Ele era solteiro e um pouco velho e não tinha nenhum amigo”, diz. “Ele só queria companhia porque estava muito sozinho. Ele me dava 100 libras e saíamos para jantar. Ele também me ajudava a comprar livros”.
Rachel terminou a relação não porque ele estava exigindo mais dela, mas por sentir estar explorando-o. Quando fala sobre isso, está claramente tentando controlar as lágrimas.
“Gostava dele como pessoa e me senti como se estivesse tirando vantagem”.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sou dessas que não desperdiçam orgasmos.

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Publicado no site delírios em comprimidos.
Dar ou não dar, eis a questão. Você tá na porta da sua casa, acabou de voltar muito bem acompanhada da balada. Vocês estão num amasso nervoso dentro do carro, você está morrendo de tesão mas ao mesmo tempo presa em seu conflito interno se chama o cara para entrar e terminar o que começaram, ou se segue os sete mandamentos de como conquistar um cara em dez passos e deixa o convite para depois do quarto encontro, porque “fazendo assim ele não vai me achar uma vadia, não é mesmo?”. Se você se identificou com a situação descrita, na boa, eu tenho pena de você. Me desculpe, mas tenho dó de quem precisa de aprovação para viver. E é por isso que me pergunto: o que aflige tanto as mulheres? Por que temos que praticamente “fingir” que não gostamos de sexo? Por que ainda é tabu a mulher dizer que adora sexo tanto quanto o homem?
Apesar da liberdade sexual que conquistamos nos últimos 50 anos com a criação da pílula anticoncepcional e a entrada feminina no mercado de trabalho, ainda vivemos sob os resquícios de uma ótica machista. Nos foi ensinado, durante séculos, que só havia dois papéis para a mulher: o da casa e o da rua. Em casa, só entrava o sexo para procriação, aquele de luz apagada e no qual a mulher é apenas um instrumento da masturbação masculina. Já a rua era o local das mulheres que dizem sim ao prazer – as tais oferecidas. Chamar a mulher liberada de puta é um vestígio desse maniqueísmo obsoleto. Os nomes mudaram, mas o tratamento para quem transa com vários caras não: o “maçaneta” dos anos 50 evoluiu para o “piranha” que atualmente virou “periguete”. Transforma-se o adjetivo, o preconceito não.
O papel de homem e mulher no sexo sempre teve regras. Fazia parte do jogo de sedução a recusa dela e a insistência dele. Apesar de hoje essa dança de acasalamento sincronizada não fazer mais sentido, quantos manuais já foram escritos em revistas femininas ditando os 10 passos que devemos seguir religiosamente para transformar o paquera em um namoro sério? E quantos desses tem como regra número um postergar o sexo? Essas revistas tem uma visão tão equivocada e retrógrada que até a sessão destinada a tratar do assunto se chama “amor e sexo”, como se para as mulheres os dois sempre estivessem atrelados um ao outro e não pudessem existir independentes. E tudo isso em vão, já que se o cara não quiser algo mais sério com você, não vai ser o sexo logo de cara (ou a ausência dele) que vai mudar isso – a não ser é claro que ele seja um machista, mas nesse caso a gente até agradece descobrir isso para se livrar logo do mané.
Aliás, até a ciência comprova que o sexo mais ajuda a engatilhar do que a espantar um possível relacionamento. Estudiosos norte-americanos perceberam que quando transamos nosso corpo libera ocitocina, um hormônio que ajuda a criar laços emocionais com o parceiro. Ou seja, o velho conselho para você “resistir à tentação ou ele vai pular fora na manhã seguinte” é uma furada, perda de tempo.
Então pra quê se prender a esses manuais de conduta pré-estabelecidos que tentam padronizar todos os tipos de relacionamento? Por que tantas mulheres continuam escutando-os e adiando o prazer quando poderiam tê-lo aqui e agora? E que tipo de comportamento incentivamos com isso? O de que se a mulher deu na primeira é porque não vale nada? A Charlotte de Sex and the City que me perdoe, mas ao negar nosso próprio prazer também contribuimos para reafirmar e fortalecer o estereótipo da “mulher fácil x mulher difícil”, da “mulher pra casar x mulher pra se divertir”, de que se você afirma que gosta de sexo, você não presta.
Acredito que uma boa parte das mulheres ainda não foca a atenção em si mesma. Fica mais encanada imaginando o que os outros vão pensar e vão dizer, ao invés de preocupar-se com o que ela quer para ela mesma. Mas acredito também que cada vez mais mulheres pulam essa barreira de hipocrisia que separa a mulher-de-casa x mulher-da-rua. Afinal, desejo não tem local nem hora certa para surgir. Sou dessas que, se sentir vontade, transam logo no primeiro encontro. E se você sente algum incômodo com essa afirmação, acho que na real o problema não está em mim, mas sim em você. Se toda mulher é meio Leila Diniz eu acredito na máxima da musa de que “quebro a cara toda hora, mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose”.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Alexamenos fidelis



Detalhe do grafite de Alexamenos.
Detalhe do grafite de Alexamenos.
Quando falamos que a religião mais perseguida no mundo é o Cristianismo, é bem provável que nossos interlocutores torçam a boca num sorrisinho meio cínico e, talvez, até soltem uma sonora gargalhada. Como é possível, dizem, que a maior e mais poderosa religião do mundo seja, igualmente, a mais perseguida? Quando fornecemos exemplos concretos – os egípcios coptas martirizados pelo Estado Islâmico, os universitários cristãos fuzilados no Quênia, as igrejas atacadas pelo Boko Haram na Nigéria –, há uma certa pressa em se afirmar que esses foram “casos isolados”.
O Cristianismo e seus fiéis são atacados todos os dias das maneiras mais variadas possíveis. O derramamento de sangue, usualmente realizado em shows de horror extremos e grotescos, não é, entretanto, a principal forma dessa perseguição. Há uma maneira mais sutil e muito mais banal de se perseguir a fé cristã, uma forma que o Papa Emérito Bento XVI chamou de martírio da ridicularização: a zombaria, o sarcasmo e a ofensa travestidos de humor e protegidos pelo princípio da liberdade de expressão.
Por mais que pensemos que isso é um fenômeno recente, trata-se de algo que acontece desde os princípios do Cristianismo. E é perto do Monte Palatino, uma das sete colinas de Roma, que se encontra uma evidência de como o martírio da ridicularização é algo tão antigo quanto a própria fé cristã.
Em 1857, durante escavações realizadas no Monte Palatino, descobriu-se uma edificação que ficou conhecida como “domus Gelotiana” (casa de Gelócio, em tradução livre). Essa edificação foi adquirida pelo imperador Calígula e, após sua morte, transformada em paedagogium (uma escola para pajens imperiais). Numa das paredes da construção, foi encontrado um grafite em que aparece, crucificada, uma figura humana com cabeça de eqüino (um cavalo ou um burro, não se sabe), e, a seus pés, um homem em aparente estado de adoração. O desenho é acompanhado de uma inscrição em grego que diz: “Alexamenos cultua seu deus”. Estima-se que o grafite tenha sido feito no ano 200 d.C., mais ou menos.
O tom ofensivo do grafite é evidente. Não é novidade que os cristãos foram brutalmente perseguidos dentro do mundo romano, inclusive pela própria autoridade imperial – as perseguições de Nero e Diocleciano são bem ilustrativas. E é difícil pensar que o derramamento de sangue de tantos cristãos ocorresse em um ambiente acolhedor e hospitaleiro para essa fé. O grafite de Alexamenos – ou graffito blasfemo, como também é conhecido – é apenas um lembrete de como a fé cristã, desde o seu início, foi escarnecida e hostilizada, fosse com palavras ou com a morte.
No entanto, sempre houve cristãos que enfrentaram corajosamente essas formas de martírio. O exemplo de coragem e serenidade daqueles que foram devorados pelos leões ou queimados vivos no Circo de Nero, para entretenimento do imperador e da plebe, acabou atraindo muitas pessoas para a fé cristã. Essa coragem e essa serenidade também foram demonstradas no caso do grafite. Num aposento contíguo ao do desenho, encontraram uma inscrição simples e direta: Alexamenos fidelis (“Alexamenos é fiel”).
Diante do escarnecimento de uma imagem satírica, a resposta foi uma singela frase composta de apenas duas palavras. Esta é a postura que se espera dos cristãos de sempre, de ontem e de hoje, na defesa de sua fé: uma simplicidade cheia daquela naturalidade que somente uma vida coerente pode dar. Essa vida coerente deve se manifestar em todos os lugares – no trabalho, na universidade, na ação política, até mesmo no boteco da esquina com os amigos –, e somente essa unidade de vida faz frutificar o que quer que façamos. É essa a receita para enfrentar de peito aberto, sem ceder ao medo, o martírio da ridicularização que um mundo cada vez mais secularizado e cínico, o nosso mundo, nos impõe.