quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Licença para matar EEUU

  • Publicado em 25/09/2010

    Licença para matar


    A sociedade americana, ou pelo menos parte dela, a que vive no Estado da Virginia,  um dos 37 Estados onde vigora a pena de morte, fez justiça com as próprias mãos na última quinta-feira ao aplicar a injeção letal em Tereza Lewis, de 41 anos, que confessou ter planejado o assassinato do marido e do enteado em 2002, sob o pretexto de embolsar o dinheiro de um seguro de vida.
    Como sempre acontece nessas ocasiões,  o “espetáculo” só não é mostrado ao vivo e à cores, mas tudo que cerca a execução daquele ser humano que se quer banir do convivio social é exibido com riqueza de detalhes.   O local da execução, a cela assepticamente limpa,  a cama onde o condenado será amarado por grossas correias e receberá a dose letal de uma combinação de drogas anestésicas,  e o vidro atrás do qual testemunhas especialmente convidadas assistirão ao sacrifício imposto pela sociedade a quem cometeu um crime.
    Nos EUA,  onde a pena de morte ficou algum tempo desativada enquanto  a Suprema Corte  examinava a  “legalidade”  do uso da injeção intravenosa,  já vigoraram o enforcamento, a  cadeira elétrica, a câmara de gás e até o fuzilamento.  No fim de algum tempo, especialmente depois que um condenado foi queimado vivo numa cadeira elétrica,  médicos e juristas optaram pela injeção considerando que era uma maneira de matar causando "menos sofrimento" ao executado.
    De maneira suave ou não,  a morte de uma pessoa, por pior que tenha sido seu crime, é sempre uma demonstração de crueldade. É quando a sociedade se iguala ao criminoso numa espécie de olho por olho, dente por dente.
    Particularmente sou contrário à pena de morte por vários motivos, mas principalmente pelo argumento acima,  pela maneira fria e calculista como a sociedade arma o carrasco do instrumental que vai tirar a vida do condenado em poucos  minutos.
    Sei que a coluna vai receber inúmeros comentários, certamente os  favoráveis à pena de  morte  serão maioria, sobretudo daqueles leitores que já tiveram um parente ou amigo assassinado de maneira brutal, e  isso não é difícil de se encontrar na maior parte da população brasileira, que convive com índices de violência que estão entre os maiores do mundo.
    No caso de Teresa Lewis, que teve o pedido de clemência recusado pelo governador da Virginia,  e em última instância pela Suprema Corte, seus advogados argumentaram que foi o caso típico do fracasso da pena de morte.  Teresa  tinha problemas de aprendizado, alguma coisa parecida com um retardo mental. E só não escapou da execução porque seu QI ficou em 72. Tivesse ela 70 ou menos estaria entre os inimputáveis, conforme a legislação americana.
    Quem tirou proveito do episódio foi o presidente do Irã que coincidentemente estava nos EUA na quinta-feira para a Assembléia-Geral da ONU. Ele deu uma cutucada na mídia ocidental que, segundo ele,  só se interessa pelo caso de Sakineh, a iraniana condenada à morte por apedrejamento, e esquece de olhar o próprio quintal, onde os EUA executaram uma mulher com probemas mentais.

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